sexta-feira, 23 de março de 2012

SEMAC lança livro sobre o Engenho Central e a imigração francesa

SEMAC (Secretaria Municipal da Ação Cultural), por meio da Biblioteca Municipal Ricardo Ferraz de Arruda Pinto, lançou ontem, o livro Cidadãos de dois mundos: O Engenho Central e a imigração francesa na região de Piracicaba, de Jorge Luís Mialhe. O livro foi confeccionado por meio de recursos oriundos do FAC (Fundo de Apoio à Cultura), da SEMAC.

Com prefácio de Bernard Lavallé, professor da Universidade de Paris III (Sorbonne-Nouvelle), o livro escrito originalmente como tese de doutorado em História Social defendida na USP em 1997 e agora publicado graças ao FAC (Fundo de Apoio à Cultura) da SEMAC, pretende oferecer, como contribuição à historiografia, o exemplo de um núcleo de imigrantes franceses ligados ao investimento de capitais nas quatro primeiras décadas do século XX.

A produção brasileira da cana-de-açúcar e sua exportação sofreram, já no final do período colonial, uma queda considerável. Visando a reversão do quadro, o governo imperial, a partir de 1875, efetuou uma série de medidas modernizadoras no setor açucareiro, implicando a substituição dos banguês pelos denominados Engenhos Centrais. Estes, em vários momentos, receberam inversão de capitais internacionais, inclusive franceses.

Caso típico de investimento francês, cujo aporte tecnológico efetuado por um pequeno grupo de profissionais especializados representou significativa parcela de contribuição para o setor sucroalcooleiro, foi o da Société de SucrériesBrésiliennes- SSB, controladora de sete engenhos nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, em períodos diversos. A SSB introduziu novas tecnologias responsáveis, parcialmente, pelo soerguimento da indústria açucareira entre os anos de 1916 e 1924.

Nessa perspectiva, o livro tratou de verificar as razões que levaram à imigração francesa para a região de Piracicaba, o perfil dos imigrantes, quais permaneceram e as conseqüências imediatas dessa permanência: integração ou assimilação? Abandono ou manutenção da nacionalidade de origem por parte de seus descendentes? Essa última indagação implicou na análise do problema jurídico da dupla nacionalidade dos descendentes daqueles imigrantes que aqui permaneceram. Paralelamente, no contexto mais abrangente das migrações transnacionais dos séculos XIX e XX, procurou-se detectar a origem social dos imigrantes franceses embarcados no porto de Bordeaux com destino ao Brasil, entre 1840 e 1940, como aporte para a compreensão da imigração francesa, lato sensu.

O primeiro capítulo do livro trata da história da Société de Sucréries Brésiliennes, como centro aglutinador da imigração francesa na região dePiracicaba e de sua contribuição para o desenvolvimento da indústria açucareiranacional até 1940.O sucesso da Société deveu-se, em grande parte, ao quadro de técnicos e funcionários franceses que imigraram para o Brasil, trazendo consigo uma estrutura organizacional e tecnológica, até então praticamente desconhecida do empresariado nacional da área.

Os detalhes da constituição do movimento migratório francês, seu desenvolvimento e suas implicações na sociedade brasileira são apresentados no segundo capítulo do livro. Foi verificada a hipótese de a imigração francesa ter-se diferenciado, no tocante ao perfil profissional, daquela oriunda da Itália e da Espanha, a partir de um confronto das informações acerca das ocupações dos imigrantes desses dois países, com aquelas referentes ao fluxo emigratório francês para a América do Sul, saídos do porto de Bordeaux.

A primeira tarefa, visando à redação desse segundo capítulo, foi a seleção e a recuperação dos dados dos 1.306 emigrantes que, entre 1840 e 1890, declararam o Brasil como destino de viagem. Em seguida, mapeou-se a origem territorial desses emigrantes a partir dos códigos elencados num arquivo informatizado na Universidade de Bordeaux. Para tanto, utilizou-se o Dictionnaire des Communes de France na decifragem manual dos códigos listados no computador, referentes aos departamentos e cidades francesas. Numa segunda etapa, prosseguiu-se com a pesquisa documental nos ArchivesDépartamentales de la Gironde, onde foram selecionados os processos de demanda de vistos e passaportes requeridos entre 1899 e 1940. A atividade de consulta e de seleção manual dos cerca de 8.275 processos e registros consumiu três meses de trabalho intensivo em Bordeaux.

No terceiro capítulo, a análise da imigração francesa foi particularizada, pois os franceses contratados pela Société de Sucréries Brésiliennes na região de Piracicaba formaram um núcleo de “micro-imigração”, ainda com vários de seus descentes vivendo na cidade. Nesse mesmo capítulo, abriu-se um espaço para a discussão acerca da dupla nacionalidade, numa perspectiva histórico-jurídica, condição jurídica não reconhecida pelo direito brasileiro, até a promulgação da Emenda Constitucional de Revisão n° 3, de 7 de junho de 1994, que modificou substancialmente o entendimento acerca da matéria.

SOBRE O AUTOR

Piracicabano, nascido em 1962, Jorge Luís Mialhe é Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) e Bacharel em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP). Mestre em Direito Internacional (USP) e Doutor em História Social (USP), com bolsa SWE do CNPq na Universidade de Bordeaux III (Michel de Montaigne). Pós-doutorado interdisciplinar na Universidade de Paris III (Sorbonne-Nouvelle), com bolsa da FAPESP e Pós-doutorado em Direito Ambiental na Universidade de Limoges (CRIDEAU), com bolsa da CAPES. É professor do Departamento de Educação da Universidade Estadual Paulista – UNESP, campus de Rio Claro; do Programa de Mestrado em Direito da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP e supervisor dos Cadernos Jurídicos do UNISAL/Campinas. Foi professor convidado das Faculdades de Direito das universidades de Sevilha, de Milão (Bicocca) e do Estado do Amazonas (UEA). É membro do IHGP, da OAB-SP, da International LawAssociation, do Instituto Hispano-Luso-Americano de Derecho Internacional e da Sociedade Brasileira de História da Educação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário